quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Edméia Williams: "O vírus do capitalismo entrou na igreja brasileira"


Ao ministrar o Seminário “Discipulado” no Ministério Internacional Belém na última semana do mês de junho a doutora e missionária Edméia Williams concedeu uma entrevista ao blog da Rede de Jovens onde contou um pouco da seu trabalho no morro Dona Marta/RJ e compartilhou um pouco da sua história marcante. Confira:

Qual o principal objetivo do Seminário Discipulado para a igreja de Jesus?
O objetivo normalmente nasce no coração da igreja local, mas o que Deus colocou no meu coração todas as vezes que eu prego é exatamente chamar as pessoas de volta para a Palavra de Deus.

O meu ministério tem como marca principal a Palavra de Deus. Eu prego a Palavra de Deus de tal maneira que as pessoas se apaixonam por ela, por isso que ela tem que ser pregada na íntegra, mas de forma interessante e com entonação interessante, explicando de forma simples, porque o evangelho é simples, a Palavra é simples. É tão simples que as próprias crianças queriam ficar com Jesus.


Como esse ministério começou?
Não se pode separar a fé das obras. Eu atuo de acordo com o que eu creio. Por exemplo, se você não cresse que eu estaria aqui hoje, você não teria vindo. Então fato de você vir é porque você creu que eu estaria aqui.

A minha fé é estrada através da minha prática. Quando eu prego o amor de Deus, é preciso que eu mostre o amor de Deus. E o amor de Deus não vai ser visível sem uma ação na direção dos necessitados. Por exemplo, a Bíblia diz que “porque Deus amou o mundo de tal maneira, Ele deu seu filho unigênito”. Então o fato dEle ter dado seu filho único é por causa do tremendo amor dEle por nós.

Se eu realmente amo Jesus e amo esse Deus, eu vou me voltar para os necessitados, porque a única coisa que a igreja de Jerusalém pediu ao apóstolo dos gentios é que ele não se esquecesse dos pobres.

Como a senhora analisa o declínio do evangelho em países como Estados Unidos e Inglaterra?
Eu tenho uma experiência muito profunda no Reino Unido. Eu prego muito na Inglaterra, na Irlanda do Norte, na Irlanda do Sul, Pais de Gales e Escócia. Nesse momento, inclusive, a minha companheira de ministério está lá.

Quando dizem que o evangelho diminuiu muito no Reino Unido é porque estão olhando muito para igrejas tradicionais. Mas quando você olha Kensington Temple, não existe no Brasil uma igreja maior e mais avivada, além de outras, que juntas são conhecidas como free church e são tremendas em todo o Reino Unido.  

Agora as grandes catedrais, conhecidas como hight church, são um declínio total. Mas se você olhar a história dos avivamentos, todos os avivamentos se deram na igreja anglicana. Então é essa igreja que está de vez em quando quase morrendo, Deus vai lá e sopra, porque avivamento é isso.

Nos estados Unidos entrou o vírus do capitalismo dentro da igreja, entrou o vírus da prosperidade material nos líderes. Então tudo virou estrela e esqueceram que a única estrela que brilha no universo da igreja é a brilhante estrela da manhã.

E como você a igreja brasileira nesse contexto atual?
Esse vírus do capitalismo entrou na igreja brasileira, porque nós temos uma linha de copiar tudo que não presta dos Estados Unidos. Copiamos deles esse estilo de igrejão, que vira “oba oba”, esse “balacubaco”, onde não se prega mais o novo nascimento, arrependimento e nem  santificação, porque se não a igreja fica vazia.

É isso que está acontecendo nesse mundão, que se chama esse evangelho pregado hoje no Brasil. Mas uma coisa é certa, Jesus Cristo disse: “Eu edificarei a minha igreja!”. A igreja de Jesus Cristo é Ele que edifica ao modo dele.

Como surgiu o desejo de fazer esse trabalho lá no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro?
Um dia eu vinha saindo da igreja com meu marido e os meus dois filhos. E era um domingo frio de julho, estava aquela garoa. Todo domingo nós íamos para um restaurante porque a cozinheira lá em casa não ficava. E naquele domingo as crianças que escolheriam o restaurante.


A minha filha queria ir para uma churrascaria muito chique aonde ela encontraria com as amigas, mas o meu filho, cinco anos mais novo que ela, queria ir para o restaurante Copacabana Palace porque ele acabaria de comer e iria pra casa jogar totó com os amigos. E eles estavam discutindo muito, porque a churrascaria era no flamengo e o restaurante em Copacabana.

Meu marido virou pra eles e disse: “olha, vocês vão parar de discutir e decidir por que se não eu vou decidir”. Nisso o porteiro abriu o portão da entrada e veio uma menininha negra e magra pra perto do carro, úmida por causa da chuva, e oferecendo acho que era chocolate pro meu marido comprar.

Ele simplesmente ignorou a garota, passou em cima de uma poça d´água, a garota se assustou, os docinhos dela caíram no chão e ela ficou lá toda suja de lama. Aquilo foi o início do meu trabalho com crianças da favela. Eu me senti tão envergonhada de estar saindo da igreja, meus filhos discutindo qual o restaurante chique que iriam e uma criança ali, sem saber quando iria comer e tudo que ela tinha na mão caiu no chão, e ainda jogamos lama nela.  Eu não consigo lembrar disso sem sentir meu coração palpitar.


No dia seguinte eu fui na igreja e perguntei ao porteiro de onde era aquela criança. Ele estendeu o braço e apontou para uma favela. Naquele dia eu descobri que tinha uma favela enorme ao lado da minha igreja. Nós tínhamos recém-chegado do Iraque. 

Eu comecei a sentir paixão por fazer trabalho com crianças, Deus começou a abrir as portas, mas meu marido era contra. Eu fui fazer um curso de liderança cristã em Cingapura e no meu segundo dia lá meu marido morreu aqui no Brasil. Quando eu voltei comecei o trabalho e pronto.

Muitos conhecem sua história de superação em Deus, qual foi sua experiência mais marcante em Deus?
A minha experiência mais marcante com Deus foi exatamente essa da menina na porta da igreja.

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